Os Estados Unidos estão virando um país do futebol?

Enquanto os brasileiros debatem se ainda estão no país do futebol, os americanos parecem se convencer de que começam a se tornar um. Essa espécie de questionamento da própria identidade nacional — tanto para nós como para eles — muda uma condição histórica. Eles nunca deram bola para o esporte, e há quem diga que a culpa é dos placares quase sempre baixos.

Torcedor dos Estados Unidos durante jogo da Copa do Mundo 2014

Torcedor dos Estados Unidos durante jogo da Copa do Mundo 2014

No futebol, um placar de 7 a 1 como o que garantiu a vitória da Alemanha sobre o Brasil é uma goleada avassaladora. Na liga de basquete americana, a NBA, nunca houve uma partida com menos de 119 pontos, somando o placar dos dois times. Por esse e outros motivos, o soccer, como o futebol é chamado por lá, era considerado uma boa opção para o americano que quisesse cochilar no sofá.

A tentativa mais incisiva da Fifa para mudar esse cenário — levar a Copa do Mundo para o país em 1994 — não foi bem-sucedida. O jogo de abertura, entre Alemanha e Bolívia, passou batido, e os grandes jornais destacaram as finais da liga de basquete. Mas, se o futebol parecia condenado à indiferença no país mais rico do mundo, a última edição da Copa mostrou o contrário.

A tentativa da Fifa de levar a Copa do Mundo para os EUA em 1994 não foi bem-sucedida.

O primeiro indício veio antes dos jogos. O país estrangeiro que mais comprou ingressos foram os Estados Unidos — num total de 196 000 bilhetes. Quem ficou por lá lotou bares e estádios onde os jogos foram transmitidos. Após a eliminação para a Bélgica nas oitavas de final, até o presidente Barack Obama afirmou estar orgulhoso da campanha.

“A Copa do Mundo serviu para ninguém duvidar de que o futebol é hoje popular nos Estados Unidos”, diz Dan Courtemanche, vice-presidente executivo da liga americana.

O frenesi americano em torno da Copa do Mundo resulta de duas décadas. Desde 1996, quando foi criada a liga masculina de futebol americano, a frequência de torcedores nos estádios aumentou gradativamente. Segundo a consultoria Scarborough Research, o futebol foi o esporte que mais cresceu sua base de torcedores no país nos últimos anos.

Hoje, 70 milhões de americanos se declaram fãs, um aumento de 44% desde 2006. Grande parte dessa popularidade se deve ao aumento da população de hispânicos, por tradição fanáticos por futebol e que somam mais de 50 milhões de habitantes — na década de 90, eram cerca de 22 milhões.

O resultado é que o futebol começa a se tornar um negócio relevante. Em 2013, o investimento das empresas em anúncios nas transmissões dos jogos foi de 378 milhões de dólares. Nada comparado à NBA, que captou 929 milhões de dólares, mas as projeções indicam que até o fim da década esse valor terá dobrado.

Em 2013, a NBA captou NBA 929 milhões de dólares em investimento de empresas em anúncios nas transmissões dos jogos.

Em paralelo, o valor dos direitos de transmissão disparou. A rede de TV Fox pagou 475 milhões de dólares para transmitir o próximo campeonato, quase cinco vezes mais do que pagou nesta edição.

Como consequência natural do aumento de fãs e de patrocinadores, os investidores também começaram a se interessar por multiplicar os times locais. Diferentemente do que acontece no Brasil, lá os clubes podem ter dono.

É o caso do brasileiro Flávio Augusto Silva, que vendeu a rede de escolas de idiomas Wise Up para a Abril Educação, controlada pelo mesmo grupo que edita a revista Exame, por 877 milhões de reais. Em 2012, ele pagou 240 milhões de ­reais pelo time de futebol Orlando City.

O que a estreia de Kaká representa para o futebol nos Estados Unidos?

O próximo passo é atrair jogadores renomados para o país, que conseguem receber salários equivalentes aos da Europa — ou quase. Na segunda quinzena de junho, o Orlando City contratou o brasileiro Kaká por 375 000 dólares mensais, 30% menos do que ele recebia no time italiano Milan.

A estratégia de atrair craques não é propriamente nova nos Estados Unidos. Em 1975, o time New York Cosmos contratou jogadores como Pelé e o alemão Franz Beckenbauer para tentar popularizar o futebol. Não funcionou, porque eles eram estrelas em meio a muitos jogadores ruins.

Agora — com a importação de jogadores — o investimento na categoria de base é um pré-requisito para que o clube faça parte da liga profissional. A estratégia é formar ídolos locais. Em 2013, o meio-campo e capitão da seleção americana nesta Copa do Mundo, Clint Dempsey, foi vendido ao time inglês Tottenham Hotspur por 9 milhões de dólares.

Clint Dempsey, foi vendido ao time inglês Tottenham Hotspur por 9 milhões de dólares.

“Em pouco tempo, teremos o mesmo poder de atração para que os melhores jogadores do mundo atuem nos Estados Unidos, seja ele americano ou estrangeiro”, afirma Aaron Davidson, presidente do escritório americano da Traffic, do empresário brasileiro J. Hawilla, que negocia os direitos de transmissão dos campeonatos nos Estados Unidos e também é dono do time Fort Lauderdale Strikers, na Flórida, desde 2011.

Até hoje, os amantes do esporte de outros países tinham um consolo: os americanos dominavam a maioria das modalidades — menos o futebol. Até quando?

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